domingo, 25 de abril de 2010

A maravilha da incerteza

Quando eu era adolescente (adorei escrever essa primeira oração) li em algum lugar a frase de Millôr Fernandes: viver é desenhar sem borracha.

Durante muito tempo ela foi a saudação do meu saudoso celular Pelezinho. Esta é a mais perfeita metáfora sobre a vida que alguém poderia ter feito. Pense comigo: você desenha e erra. O que fazer? Rabiscar? Adaptar? Seja qual for a resposta o erro - ou o traço não planejado - está ali e vai fazer parte do todo, da vida.

Divagação nº 1: tenho percebido que meu blog se descaracterizou nesta nova fase. Se antes ele servia como uma forma de opinar sobre notícias, hoje ele é um verdadeiro diário, que agora me acompanha em um momento de solidão neste sábado à noite em casa. Tudo bem, foi uma escolha estar aqui. Eu até saí para comer, mas logo voltei. Por hoje não quero contato com o mundo exterior, apenas fazer terapia em grupo – se eu me abro com a web, acho que pode ser considerado terapia de grupo.

Retomando: acrescentaria ainda que além de desenhar sem borracha, é também não saber a quantidade de papel, lápis, tinta ou o que quer que seja que escolhemos para fazer arte. Digo isso porque não sabemos também o que nos espera. Isso faz da vida algo ainda mais interessante.

Estou meio filosófico hoje. Talvez por sentir na pele o reflexo de deixar o lápis sempre no mesmo ponto da folha. Hoje, quando começo a movimentar a mão, sinto muito medo de errar. Sou um destro desenhando com a mão trocada. Os traços não são firmes. Talvez não saiam como o desejado e a obra não agrade, mas me esforço para conseguir deixar registrado a bela imagem que está dentro de meu coração.

Preciso de ajuda. Alguém que tome o lápis da mão esquerda e o coloque na correta. Alguém que desenhe bem, ou que não tenha medo de arriscar uma figura abstrata; que segure em minha mão e faça traços aleatórios no papel apenas para ver se o resultado agrada. Até agora, a mim me agradou - e muito.

Divagação nº 2: hoje foi um dos dias que comecei a escrever sem rumo e acabei fazendo uma “qualquer coisa sem nome”. O garoto de 16, 17 anos ficou para trás, mas o tempo parece trazê-lo de volta para o meu peito. O próximo passo é escrever um poema. O passo de agora é fazer a escolha certa! Eu escolho ser o Girardi, o que muitos nem sabem que se chama Lucas. Eu escolho ser este garoto do início da década que tinha o coração puro. Eu escolho o caminho correto, não é o mais curto, nem o mais longo, nem o mais fácil, nem o mais difícil. O correto.

Após duas divagações, a ideia inicial e razão do título: a incerteza do que vem pela frente faz com que queiramos, devamos e façamos sempre o nosso melhor. Podemos errar – até mesmo exagerar – mas nunca nos contentar. Sempre é preciso e possível fazer mais. O trabalho pode ser mais bem executado. O texto mais bem escrito. O amor ainda mais conquistado. A vida ainda mais vivida.