sábado, 7 de março de 2009

Recital de poesia contemporânea?!

Antes de mais nada é preciso pedir desculpas pela falta de um texto ontem. Viajei e fiquei sem acesso à internet. Estou de volta e pronto para continuar as postagens diárias.

Certa feita eu confraternizava com meus amigos quando uma questão nos intrigou: o legado musical que nossa geração deixará para as que nos sucederão. De nossa confabulação nasceu o vídeo que ilustra essa postagem. Assista-o.


video

Não é de hoje que eu penso nessa situação, mas ao ler um texto que falava sobre o assunto, fiquei instigado a escrever e dar meu pitaco (opinião é para especialistas e de música eu entendo tanto quanto de motor de avião – mas estou certo de que ouço boa música). A música e a modernidade, escrito pela jornalista Marinella Souza exprime bem a minha forma de ver, mas é sempre bom falar também para poder engrossar o coro e tentar fazer a diferença.

Comparando-se a produção musical da década atual com a das décadas passadas, ouso dizer que vivemos um período morto. Nada que valha a pena ouvir foi produzido. É uma posição radical. Existem exceções, claro. Mas de uma maneira geral, criamos apenas músicas de balada, para balançar o corpo. Citando o texto de Marinella “Não se pode negar, no entanto, que a batida moderninha é muito eficiente quando o propósito único do indivíduo é a diversão: na balada, para curtir com os amigos nada melhor do que um ritmo que embale de forma sensual e envolvente os corpos ávidos por uma interatividade com o sexo oposto”.

Não entra em minha cabeça, no entanto como o sujeito consegue ouvir um “batidão” enquanto está no trânsito, por exemplo. O momento já é caótico por si só. Com as batidas a situação consegue ficar ainda pior. Por que não aproveitar o momento e ouvir músicas que façam pensar? Porque elas estão em extinção. As composições que se encaixam nessa categoria são antigas e é preciso vestir a camisa “retrô” para ouvi-las.

A questão em que devemos pensar não é a qualidade dos artistas. Muitos dos que produziram maravilhas musicais ainda estão em atividade e talentos não deixaram de nascer. O problema é a falta de matéria prima para a criação. Vivemos em um país sem grandes conflitos ideológicos como os do tempo da ditadura. Um país que caiu na rotina da falcatrua. Não prego a volta dos anos de chumbo para que voltemos a agir de maneira inteligente. Quero mesmo é que as pessoas saiam do estado de apatia em que se encontram e comecem a questionar nossa realidade, como era feito há poucas décadas.

Empunhe suas armas. Use o que tem de melhor para fazer um futuro do qual se orgulhe de ter construído. Caso precise de uma injeção de ânimo, um pouco de MPB pode ajudar (e a mensagem ainda vale como hino contra a música ruim). Apesar de você, de Chico Buarque:




Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão.
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão.

(Coro) Apesar de você
amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro.

Você que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
de desinventar.
Você vai pagar, e é dobrado,
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar.

(Coro2) Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria.

Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença.

E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir
antes do que você pensa.
Apesar de você

(Coro3)Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia.

Como vai se explicar
Vendo o céu clarear, de repente,
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar,
Na sua frente.
Apesar de você

(Coro4)Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc e tal,
La, laiá, la laiá, la laiáÂ

4 comentários:

  1. Tinha feito um comentário mas ele ficou mto ruim. Resolvi deixar pra lá, já q nossa visão d música é exageradamente oposta ahahaha. A gente sobreviverá a isso. Abraço

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  2. Eu sou dessas que ouve batidão no transito caótico e me sinto mais feliz! Adoro uma musica dançante mesmo fora da balada. Mas sou um pessoa consciente independentemente do meu gosto musical, hehe, bjus!

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  3. Nem preciso dizer o quanto concordo com tudo o que está escrito, né?! Grande beijo e obrigada pelas referências. hehe

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  4. Música é arte. Arte é expressão da alma. As músicas estão vazias porque as almas estão vazias. E não é por falta de ideologia. É por falta de pensar. Pensar no porquê de se existir, no porquê de se amar, no porquê de fazermos parte da massa... Mas hoje quase ninguém - após um dia exaustivo de trabalho, de trânsito parado, casa e família pra cuidar - se dá o trabalho de questionar as próprias atitudes, seja no trabalho, em casa ou com os amigos: pensar no que valeu a pena, no que não valeu a pena e no que poderia ser melhor...
    Acredito que o mundo esteja assim porque o capitalismo já não rege apenas a dinâmica de mercado, mas também as mentes e as emoções humanas. "Amores" e carícias são trocados como mercadorias. Pessoas são escolhidas ou rejeitadas como produtos em um super mercado: pelo rótulo ou pela posição que ocupam nas prateleiras das classes sociais.
    E seguindo essa dinâmica, as relações humanas tornam-se tão baratas que não há mais prazer em cultivá-las... A consequência disso é a apatia e a indiferença generalizadas na sociedade.
    E o que as músicas atuais tem a ver com tudo isso? Elas simplesmente refletem a lógica do sistema e o alimentam à medida que proporcionam um abiente adequado para o consumismo, cada vez maior, de produtos e pessoas...

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