segunda-feira, 23 de março de 2009

Santo do pau oco

Certa feita ouvi dizer que a expressão “santo do pau oco” surgiu quando imagens sacras eram usadas para esconder barras de ouro que eram contrabandeadas. Como se pode notar, o uso de expedientes marotos para a prática criminosa não é recente e faz com que autoridades e criminosos estejam em constante processo de aprimoramento.

Quero chegar a uma notícia que li na última sexta-feira: Polícia espanhola apreende jogo de jantar com porcelana de cocaína. A engenhosidade da mente criminosa surpreende (até a página 20 – leia a matéria... a polícia chegou até a carga por conta da diferença de peso da encomenda e do peso declarado). De qualquer forma, vários pratos de cocaína devem ter sido servidos nos jantares europeus até esse furo.

Mais uma vez o ponto crítico: começo a escrever sobre um assunto que me chamou a atenção e em determinado ponto não sei se falo de A ou de B. A dúvida de hoje é falar sobre a relação consumo e tráfico de drogas ou sobre as tecnologias que surgem no combate ao crime (no caso seria sobre as guerras que iria falar – queria ter um 0800 à minha disposição para fazer um “Você decide”). Como assisti Tropa de Elite na semana passada, vou falar da relação consumo, tráfico e violência.

O vício em si eu não vou levar em conta (já falei sobre ele em meu primeiro texto). O consumo é a bola da vez. Ele é a ponta da cadeia (praticamente o vegetal na ponta da cadeia alimentar). Sem ele o resto não existiria. O consumo de qualquer produto ilegal leva ao surgimento de um mercado ilegal. O tráfico de drogas é um deles e por ser contra a lei é combatido pelo Estado através de sua força repressora, a polícia.

A questão se torna física. Leis de Newton: ação e reação. A toda ação corresponde uma reação de igual intensidade e direção, porém em sentido contrário. O tráfico reage. A polícia aumenta a repressão. O tráfico reage. Reticências. Assim chegamos às armas de uso exclusivo das forças armadas no alto dos morros (pulei o detalhe do tráfico de armas e corrupção para que o armamento se torne acessível).

A disputa que ficava restrita aos locais do tráfico se expandem (continua no mesmo lugar, as armas é que alcançam mais longe e acaba sobrando para quem não tem nada com o assunto). Ah, é, o consumo. Se ele não existisse, o tráfico não existiria (afinal, quem iria querer ser criminoso para ficar com mercadoria parada?), não haveria o dinheiro para que bandidos se armassem para guerra e balas perdidas chegariam no máximo até na esquina.

Ignorando as relações interpessoais e levando em conta apenas a relação de classes, as balas perdidas, em geral, atingem quem a disparou – a classe média. Foi um chavão e beirou o sensacionalismo, mas tudo bem. O jornalismo marrom está liberado para tentar transformar a sociedade.

3 comentários:

  1. Este recorte que você fez do (triste e real) cotidiano, nos mostra nossa sociedade de forma nua e crua. Infelizmente, muitos varrem para baixo do tapete. Porém, outros tantos trazem a tona estes assuntos pertinentes!

    Parabéns pela abordagem, Lucas.
    Forte abraço, cara!

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  2. Pois, é, Dupla...traficantes culpam os usuários e vice-versa na eterna luta do "quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha". E a sociedade não se dá conta de que não é hora de apontar o dedo e procurar culpados. É preciso fazer alguma coisa para tentar reverter o quadro...Até quando vamos ficar nessa inércia e deixar a sociedade se acabar em balas perdidas (ou encontradas)???

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  3. Boa!
    E se você começar a pensar com calma e analisar cada fio que forma essa teia de vício, tráfico, suborno, violência, você vai sempre chegar em um fio guia chamado consumismo.
    Quando o consumo vira a meta de vida de um ser humano, qualquer outra perspectiva de vida menos materialista é rejeitada... E o que isso provoca em uma sociedade? A médio e longo prazos: perda dos valores éticos, morais, perda da fé (não falo só do cristianismo), perda da consciência como ser social... E é um efeito dominó, porque ficamos descrentes, indiferentes e nos fechamos cada vez mais em nós mesmos...
    E a solução pra isso tudo? Com certeza é a mudança. E não a mudança do mundo, mas a mudança de cada ser do mundo. E eu vou começando por mim mesma. Porque se eu não consigo me melhorar, não preciso perder tempo sonhando com um mundo melhor...
    A boa notícia é que (com doses homeopáticas e persistência) eu to conseguindo!!! E recomendo a todos: pelo menos tentem!!
    Um abração
    Teh mais!

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