quarta-feira, 29 de abril de 2009

Crise aérea

Estava lendo as notícias agora cedo quando de repente tudo fez sentido. Foi como se uma cortina se abrisse diante de meus olhos. Como se um véu descobrisse minhas vistas. Como se uma luz fosse acesa na escuridão. Como (chega, já deu para entender). Pois bem, descobri o que estava por trás do apagão aéreo que assolou o Brasil: as viagens dos deputados (ou melhor, as viagens que deveriam ser feitas pelos deputados e eram feitas por qualquer matinho que balançasse na estrada pedindo carona).

Fiz a descoberta muito tarde. Os próprios parlamentares já apresentaram uma solução para o caso. Depois de o presidente da Câmara Michel Temer (PMDB-SP) ter cedido à pressão de alguns deputados e decidir levar a discussão a plenário e de a opinião pública se rebelar (tudo bem, não vi ninguém queimando colchão, mas a palavra é forte e cumpre seu papel semântico no texto) contra a decisão, a
Câmara resolveu retomar a ideia inicial, que era aprovar as restrições dos usos das passagens aéreas por decreto. Tudo para evitar o desgaste político (an? Se desgastar mais a Câmara acaba) com possíveis afrouxamentos das novas normas. Resumindo: os deputados poderão usar sua cota apenas para viagens dentro do país. Seus assessores poderão viajar também, desde que a Mesa Diretora seja avisada. Os parentes ficam proibidos de viajar (até quando?) e o que sobrar deverá ser devolvido (que raciocínio lógico!).

Descobri um segundo fato. Uma coisa levou à outra. Os deputados vivem em outro mundo. Primeiro, muitos deles não sabiam o que podia ou o que não podia ser feito com suas passagens. Mais ou menos o caso do presidente Lula que não sabia de nada do Mensalão. Por último, vivemos uma época de demissões e cortes por conta da Marolinha e eles falam em aumento de salário. Quero acreditar que ouvi errado, mas me parece que ontem no Jornal da Globo teve uma matéria falando em aumento de salário. Eu poderia muito bem pesquisar isso na internet agora mesmo, mas não quero ficar mexendo muito para não feder. Quando se trata de política, infelizmente, tudo tende a ser pior do que parece. Espero que isso mude um dia e que nossos “representantes” ganhem nosso respeito e passem a nos representar.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Escorreu uma lágrima

Homem não chora nem por dor, nem por amor. Balela. Homem chora tanto quanto mulher. O preconceito de que homem não chora está cada vez mais indo pelo ralo.

Já chorei por dor. Já chorei por amor. Já chorei por perder alguém. Já chorei por me mudar de cidade (duas vezes e uma delas depois de velho – falou o idoso [comentário dentro de comentário já é demais]). Já chorei ao final de um livro. Já chorei por ver o Chaves indo para Acapulco. Já chorei por ver Susan Boyle.

Despretensiosamente liguei a TV hoje cedo. Acordo todos os dias por volta de sete da manhã e venho direto para o computador ler as notícias. Hoje decidi assistir o Bom Dia Brasil. Fui brindado com Susan Boyle, uma britânica de 47 anos, que diz nunca ter sido beijada e que não obedece aos padrões de beleza (leia-se, é feia). Ela participou de um programa de calouros. Diante dos juízes e da platéia descrente ela se mostrou segura. Olhares fulminantes e risinhos sarcásticos não a impediram de dizer a frase mais brilhante que já ouvi: Este é apenas um lado de mim. Ela mostrou também seu outro lado, que arrancou aplausos da platéia e fez umas das juízas ficar de pé.

Sim, ela é realmente feia. Mas de que isso importa? Os anjos do Barroco também são. E é isso que ela é, um anjo que veio calar nossos preconceitos.

Sem mais delongas: os machões vão chorar e as manteigas se derreter.

Assista direto do Youtube porque o vídeo é tão bom que foi desativada a opção de incorporar em outras páginas.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Racismo americano

Para quem pensa que o problema do racismo nos Estados Unidos foi superado com a eleição de Barack Obama para a Casa Branca está enganado. O preconceito estadunidense agora é contra os cachorros de elite (não me refiro aos políticos corruptos ou empresários inescrupulosos).

Acredite se puder: grupos de proteção aos animais resolveram implicar com o primeirocachorro (neologismos seguem o novo acordo ortográfico?) pelo fato de o animal ser de raça: um
cão d´água português (tudo bem que isso parece mais nome de uma espécie exótica de peixe ou um tipo especial de bacalhau). Se minha palavra de jornalista de uma cidade do interior de Minas Gerais não for suficiente, a notícia de onde tirei as informações sobre o cachorro do Obama está no portal Terra.

A vida de figura pública não deve ser nada fácil: não basta ter um cão de segunda mão, tem que ser um viralata de segunda mão. É claro que se a família Obama tivesse adotado um cachorro sem raça pessoas do mundo inteiro seguiriam o exemplo (acho mais adequado dizer tendência – porque o peixe, digo, cão d´água português vai virar moda) e muitos animais deixariam de ser sacrificados em canis ao redor do mundo (menos em países asiáticos onde eles fazem parte da dieta).

“esse tipo de cão poderia ser encontrado em inúmeros sites de resgate de animais na Internet ou através de grupos de protetores dos cães d'água portugueses

A declaração chamou minha atenção. Vai caçar um serviço! No mínimo os grupos protetores dos cães d´água portugueses são parceiros da Associação de Proteção às Borboletas do Afeganistão.

Esse pessoal não tem mais o que fazer da vida? Será que eles não sabem que existe uma marolinha chamada de Crise Financeira Internacional que precisa ser muito mais debatida do que os animais de estimação da família Obama?

Na próxima vez eles deviam comprar um peixinho beta na calada da noite para evitar os holofotes e o assédio dos grupos protetores dos peixes beta jogados pelo ralo.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Religiosidade mineira


Há apenas quatro dias em Ouro Preto pude perceber a força que a religião tem por aqui. Não é à toa que a cidade que tem cerce de 70 mil habitantes possui 13 igrejas. O mesmo caso se aplica a Mariana – lá são apenas sete igrejas, mas duas delas, São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo, estão lado a lado na praça Minas Gerais.

Não só a religiosidade é forte. As tradições se mantêm vivas nessa região. A semana santa é uma prova disso. No pouco tempo que estou aqui aprendi mais sobre as cerimônias que se relacionam com a paixão de Cristo do que em 22 anos de vida. Na segunda eu cobri o Sermão do Pretório – este foi o tribunal em que Jesus foi julgado. Terça-feira foi a vez do Sermão do Encontro – momento em que Jesus se encontra com Maria durante seu calvário. Ontem foi o Ofício de Trevas, cerimônia de origem medieval que relembra os poucos momentos em que Jesus esteve morto e a Terra sem luz. Acredito que já deu para perceber como as práticas religiosas são fortes por aqui. Não fiquei 500 anos sem postar para depois ficar falando sobre tais práticas (mas elas são interessantes, vale a pena conhecer).

Vamos ao problema. Às vésperas da semana santa a Igreja de São Francisco de Assis em Mariana foi interditada. Entrevistei o promotor de justiça da cidade, Antônio Carlos de Oliveira. Ele afirmou que a interdição nessa época não foi feita para chamar atenção para o fato. “Foi uma coincidência. Pelo menos de minha parte não foi proposital” – reforçou o promotor. O fato é que por querer ou “sem querer querendo”, a interdição ganhou espaço na mídia e chamou a atenção para uma questão de suma importância: a preservação do patrimônio histórico.

O descuido pode ter consequências trágicas:
há dez anos a Igreja de Nossa Senhora do Carmo (a vizinha da que foi interditada) pegou fogo e foi quase destruída. Ela foi recuperada, mas não precisava ter sido queimada quase que completamente. Ela estava em processo de restauração quando o incêndio aconteceu, é verdade, mas quando se trata de patrimônio histórico e artístico, todo cuidado é pouco.

Defendo atitudes drásticas como a interdição e o consequente prejuízo de cerimônias tradicionais na Igreja de São Francisco. Só assim alguma medida profilática será tomada (nossas avós já diziam que é melhor prevenir do que remediar). Para finalizar, uma frase de impacto que devo ter ouvido em alguma aula de história ou sei lá onde: um povo que não tem memória está fadado a cometer os mesmos erros do passado e assim, não terá futuro
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sexta-feira, 3 de abril de 2009

O problema do "de graça"

Na última quarta-feira eu estava em Ouro Preto, cidade em que morarei a partir de domingo e me deparei com um problema que me informaram ser crônico na cidade: a falta de água. O motivo para esse problema? A água é de graça em Ouro Preto, por isso falta. Isso me fez pensar na qualidade dos serviços que são oferecidos gratuitamente (ou supostamente são gratuitos).

O exemplo que vem na cabeça são as rodovias estaduais e federais: sabemos que o serviço não é gratuito, pois pagamos o IPVA de nossos carros (mas não o encaramos como um serviço pago porque não vemos o dinheiro saindo de nosso bolso quando de nossas viagens). Não é raro ouvir alguém comentando que as rodovias deveriam ser todas privatizadas e ter pedágio. O IPVA seria extinto para que a qualidade do serviço aumentasse. A solução parece boa, mas não deveria ser necessário pensar nisso uma vez que pagamos um imposto para a manutenção das estradas.

Quando chegamos nesse ponto encontramos no ar uma pergunta: para onde vai o dinheiro desse imposto pago? Porque as rodovias não são recuperadas e o recurso desaparece. São dois os destinos possíveis.

O primeiro é o tradicional dinheiro público que é desviado por meio da corrupção, claro (chego a pensar que a maior parcela é usada nisso). A causa desse problema é a crise moral da sociedade (não acho que seja apenas um problema localizado na política). A afirmativa é feita pela vivência diária em que pessoas comuns falam da corrupção política e agem em contradição ao que pregam (para mim não existe diferença entre desviar o dinheiro público, roubar o sinal de internet do vizinho ou simplesmente pegar uma inocente bala sem pagar – muda-se a escala, mas o erro é o mesmo).

O segundo destino possível é um atestado de falta de capacidade de gerenciamento – problema esse enfrentado, também, nos lares brasileiros. É o famoso “descobrir um santo para cobrir outro”. É o dinheiro reservado para comprar o leite sendo usado para comprar um tênis. É o dinheiro do aluguel sendo usado para trocar o carro. É o dinheiro do IPVA sendo usado na saúde.

Voltando ao assunto principal - os serviços gratuitos - não creio que eles necessariamente sejam ruins. Eles têm condições para serem bons, o problema é o mau uso daquilo que não é cobrado. Se pensássemos que valorizando e fazendo uso racional daquilo que nos é oferecido sem custos faria com que a qualidade se mantivesse alta ou se elevasse, não faltaria água em Ouro Preto e as estradas não seriam esburacadas (pode parecer meio Poliana o que diz respeito às estradas, mas pense, por exemplo, no excesso de carga dos caminhões que a visão se torna menos inocente).